Barco Moliceiro

Este lindo barco serve para tudo (...) é o encanto da ria. Tem não sei quê de ave e de composição de teatro. Anima a paisagem(...) chega a servir de casa (...) Não conheço outro mais artístico, mais leve, mais adequado às funções que exerce e à paisagem que o circunda.

Raúl Brandão, 1923, in “Os Pescadores”

O Barco Moliceiro

O moliceiro, um barco tradicional com raízes profundas na cultura marítima portuguesa, era utilizado no passado para o transporte de moliço, um conjunto de algas marinhas cruciais para a fertilização dos terrenos agrícolas (ver mais).

Com uma capacidade para transportar até 7 toneladas de moliço, esses barcos eram impulsionados por métodos antigos como a vela, a vara ou a sirga. Contudo, a evolução dos fertilizantes químicos veio substituir o uso do moliço, tornando sua colheita praticamente inexistente.

Atualmente, os moliceiros ganharam uma nova vida, sendo predominantemente empregados em passeios turísticos e regatas, onde preservam a herança cultural e oferecem aos visitantes uma experiência única nas águas calmas das riachos portugueses.

Esses barcos agora navegam não apenas como veículos de trabalho, mas como símbolos de uma tradição que resiste ao passar dos tempos.

Quem visita a Ria de Aveiro, certamente, não ficará indiferente ao humor dos seus painéis e à sua estrutura, completamente diferente dos outros barcos que aqui navegam.

Conhecer a história do Barco Moliceiro e o seu processo de construção é entrar no mais íntimo da cultura aveirense.

a row of colorful boats sitting on top of a body of water
a row of colorful boats sitting on top of a body of water
A Origem

Há séculos, os habitantes da região norte da ria de Aveiro fizeram uma descoberta valiosa: a vegetação submersa que ali existia era um excelente fertilizante para os seus campos, muitas vezes arenosos (saiba mais Moliço).

Essa revelação levou a uma adaptação significativa nas técnicas agrícolas e nos instrumentos utilizados. Para colher o "moliço", como hoje é conhecido, os agricultores inovaram suas alfaias, aprimorando, por exemplo, os ancinhos, que eram essenciais para a coleta. Além disso, as embarcações usadas na pesca e no transporte também passaram por modificações para facilitar o carregamento dessa preciosa riqueza natural.

Assim, o saber-fazer desses agricultores foi moldado pela necessidade de melhorar suas colheitas, e a ria de Aveiro tornou-se um ponto central de desenvolvimento agrícola e económico, onde tradição e inovação caminham lado a lado ao longo dos séculos.

Barco Moliceiro - construção naval

Assim, uma considerável extensão do bordo, a meio do barco, terá sido rebaixada ao máximo, ficando abaixo da linha de água, a partir de certa quantidade de carga, para facilitar a manobra de colocar, no interior, o pesado conteúdo (moliço e alguma lama) dos enormes “ancinhos de arrasto”. A proa terá tido de ser bastante levantada, para que, quando não houvesse vento e a propulsão, durante a faina, tivesse que ser à vara, os tripulantes trabalhassem num plano inclinado, obtendo-se, assim, como é óbvio, melhor rendimento, com muito menos esforço do que se a tarefa fosse praticada numa superfície plana. No que respeita à ré, terá sido, também, alteada para servir de suporte a um leme de grandes dimensões, muito largo e pouco profundo, que permitisse governar, eficazmente, nas águas baixas das “praias de moliço”.

Para ajudar no calafeto e proteger a madeira de pinho da acção do tempo e da água, os moliceiros teriam todo o seu costado embreado a pez negro, o que lhe conferia uma bela, elegante e perfeita silhueta negra. Teria acontecido, porém, que, um dia, talvez bem mais recentemente do que muitos imaginam, um mestre construtor com veia artística, satisfeito com a sua obra-prima, ou um moliceiro, com jeito para a pintura e que gostaria muito do seu barco, teriam pensado, como quase todos nós, quando fazemos ou possuímos algo que muito estimamos, acrescentar-lhe um detalhe, um enfeite, com a pretensão de o melhorar ou embelezar.

E, olhando para aquela grande superfície negra e vazia da proa, que, ainda por cima, não servia para nada, ao contrário de tudo o que existia nos moliceiros, onde tudo tinha serventia, já para não dizer que, sendo negra como os pecados mortais, não estaria muito de acordo com o feitio alegre e folgazão daquela gente, teriam os preditos mestre construtor ou moliceiro proprietário congeminado: “E se eu “botasse” ali uma pintura, “inté” era capaz de ficar bem.” Tendo posto o pincel em acção, usando as cores simples e vivas de que dispunham e sem obedecerem a regras pictóricas de estilos que não conheciam, pintaram o que lhes veio à ideia. Após verificar que o seu labor tinha obtido o resultado previsto, por bombordo, porque não repetir a dose por estibordo? Com estes dois ornatos, o barco teria ficado, na opinião geral, com as “caras” muito mais airosas, daí que, olhando para o “castelo da ré”, ter-se-ia reparado que aquelas grandes zonas de costado preto, sem nada, estariam mesmo a pedir igual intervenção de estética naval que não se teria feito esperar.

O alindado barco teria tido êxito e, por isso, suscitado desejos de imitação e, porque não, algumas invejas. E como nem todos os mestres construtores ou proprietários seriam dotados de vocação pictórica, teriam surgido os pintores populares, que se dedicaram a uma arte decorativa ingénua que, felizmente, chegou até aos nossos dias.

(texto retirado de: http://ww3.aeje.pt/avcultur/avcultur/DiamDias/Diversos/Paineisdos.html...)

Glossário "Barco Moliceiro"

Vocabulário Técnico do Barco Moliceiro

CASTRO, D. José de. - ESTUDOS ETNOGRÁFICOS. AVEIRO. I Tomo: Moliceiros. II - Pescadores. III - Lavradores. IV - Marnotos e Embarcações Fluviais. V - Primeira Parte - Industrias Populares. V - Segunda Parte - Feiras e Mercados e VI - Culto Religioso. Usos e Costumes. Porto. Litografia Nacional 1943 (a 1945). 6 Vols. In-Fólio. Brs.